quarta-feira, 26 de março de 2014

Se beber, não crase!



Casamento é a união solene entre duas pessoas que se amam. Mas casamento, tal como o conhecemos, nem sempre foi assim. Aliás, ele foi uma invenção, pasme-se, caro leitor, do Capitalismo. Antes, não era importante que os cônjuges se conhecessem, se gostassem, enfim se amassem . O amor não estava em jogo. O casamento era, tão somente, um acordo entre famílias para selar não o amor, mas a fusão de terras, patrimônio, enfim, bens.  

Mas este texto não é sobre o amor, nem sobre Capitalismo. Sequer sobre bens. Nosso assunto é sobre crase.

Crase é uma palavra de origem grega e significa fusão, união. Em gramática, basicamente a crase se refere à fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a": Vou à festa. O verbo ir rege a preposição a, que se funde com o artigo exigido pelo substantivo feminino festa: Vou à (a+a) festa. Graficamente, a fusão das vogais "a" é representada por um acento grave ( ` ).

No caso de ir a algum lugar e voltar de algum lugar, usa-se crase quando: "Vou à Bolívia. Volto da Bolívia". Não se usa crase quando: "Vou a São Paulo. Volto de São Paulo". Ou seja, se você vai a e volta da, crase há. Se você vai a e volta de, crase para quê?

Atenção: constitui erro colocar acento grave antes de palavras que não admitam o artigo feminino a, como verbos, pronomes pessoais, palavras masculinas e de expressões com palavras repetidas: dia a dia, gota a gota, cara a cara.

É importante lembrar dos casos em que a crase é empregada, obrigatoriamente: nas expressões que indicam horas ou nas locuções à medida que, às vezes, à noite, etc., na expressão "à moda", ainda que esteja implícito: Saio sempre às sete horas da manhã. À medida que o tempo passa, fico mais apaixonada por você. Gosto de pizza à moda italiana. Compro móveis à Luís XV. 

Ocorre crase ainda na preposição "a" com as iniciais dos pronomes demonstrativos aquela(s), aquele(s), aquilo ou com o pronome relativo a qual (as quais): Refiro-me àquele beijo que não foi dado. Quem refere, se refere a alguém ou a alguma coisa = refiro-me a + aquele beijo. Prefiro isto àquilo. Quem prefere, prefere uma coisa à outra = prefiro a + aquilo.

Agora, se você chegou a este (uso facultativo da crase) texto por causa do filme Se beber, não case!, veja o primeiro e esqueça os subsequentes.  Na certa, diretor e roteirista beberam muito para fazê-los, motivo pelo qual assisti-los é pura ressaca.  




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Salário Emocional do Professor


Houve um tempo que as meninas sonhavam em ser professoras. Houve um tempo em que ser professor era ter prestígio social. Houve um tempo que existia brilho no olhar de um professor ao responder a pergunta: Qual sua profissão?


Novos tempos.

Discute-se hoje, depois do advento “Google” se, inclusive, o professor não é mesmo um cargo em extinção. Nos Estados Unidos, por questões de segurança, muitos pais resolvem ser professores de seus próprios filhos e educá-los no conforto de seus lares, longe de bullying, de atentados terroristas, psicopatas sociais, etc. Uma saída para a violência do dia a dia. Lá é possível, desde que o aluno atinja as competências e seja aprovado por órgãos oficiais, ser diplomado formalmente. No Brasil, é diferente. O ensino formal se faz exclusivamente por meio escolar, passando por professores graduados.

Não é fácil ser professor no Brasil. Assim como não é fácil ser professor no mundo. Sim, o professor brasileiro não sofre sozinho com péssimas condições de trabalho, baixos salários, planos de carreira pífios. Não chega a ser um consolo. É só realidade.

Baixos salários, aliás, têm sido o principal motivo da migração do professor para outras áreas de atuação. Justo. Porque vocação não paga conta. E não há como negar que o salário desse profissional está aquém da remuneração de outras profissões, que muitas vezes exigem menos qualificação e dedicação.

Mas como mensurar o salário de tirar um aluno das trevas da ignorância? Como mensurar o salário de um sorriso de quem acabou de resolver uma questão difícil? Como mensurar o semblante de alguém que te reconhece na rua com um doce: “Professora!”? Ou ainda um: “Não mexe com essa, porque ela foi minha professora”?

Numa sociedade na qual muitos profissionais escondem sua identificação civil por medo de serem abordados na rua, o professor ainda caminha com certa desenvoltura...

É um tipo de piso salarial pouco valorizado: o salário emocional.

Para muitos, é o tipo de remuneração capaz de fazer com que, apesar dos pesares, ainda acreditemos que seja possível modificar uma sociedade para melhor através da Educação.

Idealismo?

 Sim. E cada vez mais.


domingo, 29 de julho de 2012

Volta às aulas


Dizem que tudo que é bom, dura pouco. Sim, o recesso escolar chegou ao fim. Durante este período, costumamos fazer coisas diferentes. Sair da rotina. E isto é bom. É um tempo no qual não temos muitas regras a pensar. Podemos dormir até mais tarde. Podemos atravessar a madrugada num papo descontraído com aquela pessoa com quem adoramos conversar! Passeamos, curtimos festinhas, sem aquela preocupação de que no outro dia é dia de escola. Lemos um livro que queríamos há tempos, numa tarde... Os horários mudam. O relógio biológico muda. Nós, enfim, mudamos também, porque fazendo coisas interessantes, nos tornamos pessoas mais interessantes.

Ocorre que chega a hora de voltarmos à rotina. E pra nós, estudantes e professores, é acordar cedo, ou mudar o horário do almoço, ou do jantar, voltar a reservar horários para os estudos específicos das matérias. Rotina é isso. Volta à normalidade. Volta à disciplina, pois é ela que condicionará nosso futuro (a menos que você seja um gênio como Steve Jobs, caso não seja, não tente fazer o mesmo).

 Hoje é, portanto, dia de se preparar para a volta às aulas. Arrumar a mochila, dar uma relembrada nos horários das matérias da semana (não esquecer os livros!); colocar o celular para carregar e despertar; não dormir tarde, caso estude de manhã; não se esquecer do uniforme.

Mas professora é meu último dia de férias! Sim, é verdade. Mas lembre-se: você é estudante. Esta é a sua ocupação. E se você não aproveitou até agora, não é justamente hoje que você tirará o atraso de tantos dias, certo? Amanhã é dia de rever os amigos, professores e funcionários que farão com que sua rotina se ajuste. Prepare-se!

Colecionou histórias para contar? Amanhã é dia de contá-las para os amigos! E sim, você terá que fazer uma redação sobre suas férias!

De minha parte, termino esse texto com uma lição na biografia de Jobs que vale para todo coração de estudante, seja ele de mestre ou aluno: procure fazer algo com amor! E boa sorte!

Até amanhã!


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O que fazer no recesso escolar?

Primeira semana de recesso, alunos! É claro que quero mais que vocês descansem a mente, façam coisas divertidas, passeiem, respirem novos ares. Mas como professora, tenho uma recomendação: não se afastem muito das letras. Aproveitem para ler aquele livro que alguém disse que era legal. Viajem na história deste livro. Sejam aventureiros de histórias fantásticas! E, por favor, não queiram matar a professorinha só por que  aconselhei uma simples leitura, tá?! Deixo uma poesia que gosto muito.

Até agosto!


                                O ASSASSINO ERA O ESCRIBA



Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.

Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,

regular como um paradigma da 1ª. conjugação.

Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,

ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito

assindético de nos torturar com um aposto.

Casou com uma regência.

Foi infeliz.

Era possessivo como um pronome.

E ela era bitransitiva.

Tentou ir para os EUA.

Não deu.

Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.

A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,

conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.

Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

(Paulo Leminski)


sábado, 30 de junho de 2012

Na frente do reto, fique esperto.


Ainda sobre pronomes, há um caso interessante sobre os pronomes pessoais. Bem, vale lembrar que os pronomes pessoais indicam uma das três pessoas do discurso: a pessoa que fala; a pessoa com quem se fala; a pessoa de quem se fala.
Os pronomes pessoais do caso Reto são aqueles que desempenham a função sintática de sujeito da oração. Assim temos:

A pessoa que fala: Eu faria tudo de novo. / Nós esperamos ansiosamente.

A pessoa com quem se fala: Tu dançarás com ele. / Vós já sabeis a resposta.

A pessoa de quem se fala: Ele é o mais brilhante da turma. / Eles saberão o que fazer.

É possível (e recomendável) pela norma culta da língua a omissão dos pronomes pessoais nas orações, uma vez que é plenamente possível reconhecê-los pela flexão verbal que acompanha o sujeito. Observe: (Tu) Encontrarás coerência em minhas palavras. / (Eu) Irei de qualquer modo. / (Nós) Sempre desejamos as coisas alheais. / (Ele/ ela) Irá assim que puder.
Ocorre que no uso da língua portuguesa falada tem cada vez mais submetido os pronomes retos a um processo de deriva, que podem levá-los ao completo desuso. O pronome você, uma criação do português falado no Brasil, tem se sobreposto ao uso de tu e de vós. Ao invés de dizer: Tu deves fazer os exercícios, preferimos dizer: Você deve fazer os exercícios. Frases com o pronome vós é ainda mais raras: Vós sabeis o que fazer é facilmente substituído por Vocês sabem o que fazer.

Note: o uso de você / vocês também é acompanhado da mudança de conjugação, que passa a ser a da terceira pessoa, quando os pronomes originalmente usados pediam a segunda pessoa.
A mesmíssima coisa ocorre com a gente, que substitui o pronome reto nós. Como no caso anterior, há mudança na conjugação. Nós pede a conjugação na terceira pessoa do plural enquanto que, ao usarmos o a gente, passamos a conjugar na terceira pessoa do singular.

Nós dançaríamos a noite toda. / A gente dançaria a noite toda.
Caro leitor, você me pergunta: “Mas pode usar a gente?”.

Sim. Tá liberado para situações informais de uso. Para textos mais sofisticados, dê preferência a nós, e se for possível omiti-lo, faça por estilo.

sábado, 23 de junho de 2012

Todos num só ritmo?



A Copa do Mundo é nossa. É possível que esta frase, caro leitor, te lembre duma música. O brasileiro é sabidamente um povo musical. Foi, talvez, pensando nessa aptidão que a Fifa lançou como slogan oficial da Copa do Mundo de 2014 “Juntos num só ritmo” (“All in one rhythm”,em inglês).

Sobre o argumento de que “num” seria restrito à oralidade, um amigo questionou-me sobre o uso correto desta contração. Seria ou não do padrão culto da língua escrita o uso de “num”?

BECHARA, in Moderna Gramática Portuguesa, 2010, não nos deixa dúvidas sobre tal assunto, está lá, no capítulo sobre as preposições e suas contrações possíveis: contração de artigo indefinido: em + um(ns) = num(uns) / em + uma(s) = numa(s). O mesmo valendo para: de + um(ns)= dum(ns) / de + uma(s) = duma(s). Portanto, não se trata de uma licença poética o uso de “num”, tampouco de uma defesa da variação linguística. A contração existe e é válida para a escrita da norma culta da língua portuguesa.

Meu amigo pode torcer o nariz o quanto for, pois está corretíssima a estrutura da frase-slogan da Copa. Nenhuma banca de ENEM, PROUNI, Vestibular, etc. implicará com ocorrências de “num(ns), “numa(s)”,“dum(ns)”, “duma(s)”.

Mas lembre-se, o mesmo não vale para: “Num tô entendendo nada”. A alteração não = num, vinculada livremente pela internet, é típica do uso oral, não sendo correta para a escrita em textos formais: redações, provas, documentos, nem aceita por nenhum gramático (até agora), logo, nenhum professor de graduação mínima permitirá tal ocorrência dentro da sala de aula.

Sanada a dúvida do meu amigo, restará a ele somente discutir qual, afinal, é ritmo que melhor representa o Brasil. E aí, alguma sugestão?