sábado, 30 de junho de 2012

Na frente do reto, fique esperto.


Ainda sobre pronomes, há um caso interessante sobre os pronomes pessoais. Bem, vale lembrar que os pronomes pessoais indicam uma das três pessoas do discurso: a pessoa que fala; a pessoa com quem se fala; a pessoa de quem se fala.
Os pronomes pessoais do caso Reto são aqueles que desempenham a função sintática de sujeito da oração. Assim temos:

A pessoa que fala: Eu faria tudo de novo. / Nós esperamos ansiosamente.

A pessoa com quem se fala: Tu dançarás com ele. / Vós já sabeis a resposta.

A pessoa de quem se fala: Ele é o mais brilhante da turma. / Eles saberão o que fazer.

É possível (e recomendável) pela norma culta da língua a omissão dos pronomes pessoais nas orações, uma vez que é plenamente possível reconhecê-los pela flexão verbal que acompanha o sujeito. Observe: (Tu) Encontrarás coerência em minhas palavras. / (Eu) Irei de qualquer modo. / (Nós) Sempre desejamos as coisas alheais. / (Ele/ ela) Irá assim que puder.
Ocorre que no uso da língua portuguesa falada tem cada vez mais submetido os pronomes retos a um processo de deriva, que podem levá-los ao completo desuso. O pronome você, uma criação do português falado no Brasil, tem se sobreposto ao uso de tu e de vós. Ao invés de dizer: Tu deves fazer os exercícios, preferimos dizer: Você deve fazer os exercícios. Frases com o pronome vós é ainda mais raras: Vós sabeis o que fazer é facilmente substituído por Vocês sabem o que fazer.

Note: o uso de você / vocês também é acompanhado da mudança de conjugação, que passa a ser a da terceira pessoa, quando os pronomes originalmente usados pediam a segunda pessoa.
A mesmíssima coisa ocorre com a gente, que substitui o pronome reto nós. Como no caso anterior, há mudança na conjugação. Nós pede a conjugação na terceira pessoa do plural enquanto que, ao usarmos o a gente, passamos a conjugar na terceira pessoa do singular.

Nós dançaríamos a noite toda. / A gente dançaria a noite toda.
Caro leitor, você me pergunta: “Mas pode usar a gente?”.

Sim. Tá liberado para situações informais de uso. Para textos mais sofisticados, dê preferência a nós, e se for possível omiti-lo, faça por estilo.

sábado, 23 de junho de 2012

Todos num só ritmo?



A Copa do Mundo é nossa. É possível que esta frase, caro leitor, te lembre duma música. O brasileiro é sabidamente um povo musical. Foi, talvez, pensando nessa aptidão que a Fifa lançou como slogan oficial da Copa do Mundo de 2014 “Juntos num só ritmo” (“All in one rhythm”,em inglês).

Sobre o argumento de que “num” seria restrito à oralidade, um amigo questionou-me sobre o uso correto desta contração. Seria ou não do padrão culto da língua escrita o uso de “num”?

BECHARA, in Moderna Gramática Portuguesa, 2010, não nos deixa dúvidas sobre tal assunto, está lá, no capítulo sobre as preposições e suas contrações possíveis: contração de artigo indefinido: em + um(ns) = num(uns) / em + uma(s) = numa(s). O mesmo valendo para: de + um(ns)= dum(ns) / de + uma(s) = duma(s). Portanto, não se trata de uma licença poética o uso de “num”, tampouco de uma defesa da variação linguística. A contração existe e é válida para a escrita da norma culta da língua portuguesa.

Meu amigo pode torcer o nariz o quanto for, pois está corretíssima a estrutura da frase-slogan da Copa. Nenhuma banca de ENEM, PROUNI, Vestibular, etc. implicará com ocorrências de “num(ns), “numa(s)”,“dum(ns)”, “duma(s)”.

Mas lembre-se, o mesmo não vale para: “Num tô entendendo nada”. A alteração não = num, vinculada livremente pela internet, é típica do uso oral, não sendo correta para a escrita em textos formais: redações, provas, documentos, nem aceita por nenhum gramático (até agora), logo, nenhum professor de graduação mínima permitirá tal ocorrência dentro da sala de aula.

Sanada a dúvida do meu amigo, restará a ele somente discutir qual, afinal, é ritmo que melhor representa o Brasil. E aí, alguma sugestão?